Opinião

Febre amarela e descaso

Vamos falar sério sobre febre amarela?*

E lembrar que não podemos nos descuidar da dengue

*Post atualizado em 17 de janeiro de 2018

febre amarela
Crédito: José Cruz/Agência Brasil

É inaceitável que a febre amarela ainda provoque mortes  por aqui. Vou apresentar alguns motivos para defender essa afirmação. O primeiro é que Minas Gerais é um dos Estados que têm recomendação para a vacinação contra a febre amarela. Embora não haja circulação do vírus na área urbana, existem condições no Estado para uma eventual transmissão da febre amarela. São as chamadas áreas endêmicas, de mata ou na zona rural. E que mantêm o risco de reintrodução da doença nas cidades. Nessas áreas, o Ministério da Saúde recomenda a vacinação.

 

A febre amarela tem maior número de casos entre dezembro e maio em áreas silvestres, rurais ou de mata. Nesses locais, é transmitida pelos mosquitos Haemagogus e Sabethes, mas já está comprovado que o Aedes aegypti – sim, ele de novo! – também pode, se infectado, transmitir a febre amarela nas áreas urbanas. O último caso registrado no Brasil na área urbana foi em 1942. Mas não temos conseguido acabar com o Aedes. Por isso são necessários a vigília e o bloqueio com a vacinação.

Esse é o segundo ponto. Existe vacina. Ela é eficaz (mais de 98%) e gratuita. Está disponível para crianças a partir dos 9 meses e para quem vai a áreas de risco. Mas, como temos alertado aqui no Papo no Consultório, as pessoas se esquecem de atualizar as vacinas. Apenas lembram que ela existe quando os casos começam a ser divulgados na imprensa.

Esquema da vacina mudou

Até junho de 2016, o Ministério da Saúde recomendava a primeira dose aos 9 meses e um reforço a cada 10 anos. Essa recomendação mudou em janeiro de 2017, quando a criança deveria tomar a primeira dose aos 9 meses e o reforço, aos 4 anos. A recomendação atual, de acordo com a Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais (SES-MG), é apenas uma dose, sem reforço. Veja no quadro abaixo as recomendações atualizadas e – tão importante quanto – as contra-indicações para  a vacina:

Indicação Esquema
Crianças de 9 meses até
4  anos, 11 meses e 29 dias de  idade
Administrar uma dose.
Pessoas a partir de 5 anos a 59 anos de  idade, que não foram vacinadas ou sem comprovante de vacina Administrar uma única dose de reforço.
Pessoas a partir de 5 anos a 59 anos de  idade que  foram vacinadas Estão imunizadas e não precisam se vacinar.
Pessoas com 60 anos e mais que receberam uma dose ao longo da vida Estão imunizadas e não precisam se vacinar.
Pessoas com 60 anos e mais, que nunca foram vacinadas ou sem comprovante de vacinação Deverão receber uma dose após avaliação médica se residirem em áreas de risco ou forem viajar para áreas de risco.
 Gestantes não vacinadas A vacinação está contraindicada. Na impossibilidade de adiar a vacinação, como em  situações de emergência epidemiológica, surtos, epidemias ou viagem para área de risco, o médico deverá avaliar o benefício e o risco. Com uma dose ela é considerada imunizada.
Mulheres que estejam amamentando crianças com até  6 meses de idade não vacinadas A vacinação não está indicada,  devendo ser adiada até a criança completar
6  meses.Deverá ser vacinada somente se residir ou for se deslocar para área com transmissão da doença. Suspender o aleitamento por dez dias após a vacinação.
Viajantes não vacinados Administrar uma dose dez dias antes da viagem, respeitando as precauções e contraindicações da vacina.
Fonte: Orientações para a Vacinação da Febre Amarela, da Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais (SES-MG), em 17 de janeiro de 2018.
Riscos da vacina

Segundo o Ministério da Saúde, a vacina é segura a partir dos 9 meses de idade como rotina ou de 6 meses, em situações de surto. É contraindicada para bebês menores de 9 meses, gestantes, idosos de 60 anos ou mais e pessoas com imunidade comprometida. Nesses casos, é preciso que um médico avalie o custo-benefício para cada um. A vacina também é contraindicada para quem tem alergia a ovo.

“A vacina contra febre amarela é feita com vírus atenuado. Por isso pode causar graves complicações se o paciente tiver o sistema imune debilitado”, explica o médico infectologista André Siqueira, pesquisador em doenças febris agudas do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI) da Fiocruz  – Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. “Ela é contraindicada, por exemplo, se a pessoa estiver em tratamento com anti-inflamatórios ou fazendo quimioterapia”, diz o infectologista.

O pesquisador da Fiocruz alerta que é preciso manter as vacinas atualizadas como rotina. Ele ressalta, no entanto, que a vacinação da febre amarela deve seguir os critérios do Ministério da Saúde.

Dengue

Uma terceira questão, não menos importante: temos vivido um ciclo de epidemias de dengue, transmitida pelo Aedes. Estar vacinado contra a febre amarela, sob esse ponto de vista, seria uma obrigação. É que o Aedes pode se tornar transmissor da febre amarela nas áreas urbanas.

Não podemos nos esquecer de que outras doenças, além da dengue, são bem mais frequentes nas áreas urbanas, como zica, chikungunya e leptospirose. O pesquisador da Fiocruz ressalta que os sintomas dessas doenças são muito semelhantes: febre alta, dor no corpo, dor de cabeça, manchas na pele.

“Na febre amarela, o que chama a atenção é a pele amarelada, devido à falência do fígado ou insuficiência renal, e os sangramentos”, explica Siqueira. Ele diz que o sistema nervoso também pode ser afetado, provocando convulsões e perda de consciência. Essas complicações podem ocorrer já no terceiro de dia de infecção – e o paciente, evoluir a óbito.

Precauções

“Quem nunca foi vacinado contra a febre amarela não deve se expor nas áreas rurais onde há casos, mesmo que sejam suspeitos”, alerta o pesquisador da Fiocruz. Para aqueles que pretendem viajar, ele recomenda que se informem antes se há casos na região. “A vacina demora de 10 dias a 30 dias para fazer efeito. É preciso que as pessoas se programem antes de se deslocar para áreas endêmicas”. Fica o alerta. A doença deve ser levada a sério. Durante o ano inteiro. Não apenas nos períodos de surto.

Saiba mais:

Boletim epidemiológico: A Secretaria de Estado da Saúde (SES) de Minas criou um hotsite sobre febre amarela para manter a população informada sobre a situação no Estado.

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