06 - março - 2026
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Colesterol tem papel decisivo na saúde do cérebro

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Você certamente já ouviu falar que existe o colesterol considerado bom (HDL) e o ruim (não HDL ou LDL). Mas sabia que um dos lugares do corpo onde essa dicotomia fica mais evidente é no cérebro? Estudos recentes revelam o papel do colesterol tanto para manter a saúde do cérebro como para acelerar seu declínio. E a composição da gordura tem tudo a ver com esses efeitos diferentes.

Durante muito tempo, o colesterol no cérebro teve papel apenas de vilão, especialmente por sua associação com acidentes vasculares no órgão. No entanto, ao longo da última década, estudos mostraram que o cérebro depende dele para funcionar bem. O órgão é composto por cerca de 60% de gordura. E precisa de lipídios para manter a estrutura das células nervosas e a transmissão de sinais elétricos. Isso, porém, não quer dizer qualquer gordura.

Saúde do cérebro

“É uma divisão complexa e depende da qualidade desse colesterol”, explica o neurologista Marco Túlio Pedatella, coordenador de Neurologia do Einstein Hospital Israelita em Goiânia. “Não é só pensar em níveis gerais, até a proporção de proteínas associadas ao colesterol HDL tem impactos nos efeitos que ele trará ao cérebro”.

O equilíbrio, portanto, é delicado. De um lado, as gorduras boas são essenciais para a formação e manutenção das funções dos neurônios. No entanto, do outro ponto de vista, o excesso de lipídios, especialmente dos tipos LDL que se acumulam em forma de gotículas no órgão, está relacionado à inflamação e ao declínio cognitivo.

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Protege ou prejudica

Vários estudos têm sido conduzidos para entender os impactos desse papel distinto do colesterol na saúde do cérebro. Um deles, da Universidade do Texas (EUA), publicado no “Journal of Clinical Medicine” (2024), revelou que o HDL pode até ter um efeito neuroprotetor.

Exames de imagem feitos em 1.800 adultos mostram que aqueles com níveis mais altos de HDL tinham, em média, maior volume de matéria cinzenta no cérebro. Isso pode ser associado a uma melhor preservação da cognição com o envelhecimento. Essa associação benéfica se manteve até em pacientes que tinham o gene ApoE4, ligado ao Alzheimer.

Outra pesquisa, divulgada na revista “Immunity” em julho de 2025, se dedicou ao colesterol “ruim”, o LDL. O estudo revelou que ter níveis altos desse tipo de gordura entre 40 e 65 anos aumenta significativamente o risco de Alzheimer e outras formas de demência nas décadas seguintes. Segundo a investigação de neurocientistas da Universidade de Purdue, também nos EUA, o excesso de gordura pode paralisar as microglias, células de defesa cerebrais.

Eles descobriram que uma enzima lipídica, a DGAT2, se acumula nessas células e reduz a capacidade de elas eliminarem as placas amiloides, acúmulos de proteínas altamente associados ao Alzheimer. O estudo também descobriu, em células in vitro, que, ao acabar com as enzimas de gordura, a função celular dessas “faxineiras” do cérebro se recuperou integralmente.

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Equilíbrio

“Esses achados reforçam a importância de manter um metabolismo lipídico equilibrado para preservar a saúde cerebral ao longo da vida”, ressalta a cardiologista Fabiana Hanna Rached, especialista em aterosclerose, do Einstein Hospital Israelita. “O desequilíbrio do colesterol no cérebro afeta a comunicação entre os neurônios, prejudica a função sináptica e pode contribuir para o declínio cognitivo”.

A boa notícia é que manter o colesterol sob controle — especialmente o LDL — pode contribui para a saúde do cérebro e reduzir o risco de declínio cognitivo. Estudos indicam que o uso de estatinas e mudanças na dieta ajudam não só a proteger o coração, mas também a retardar ou até prevenir a demência.

Colesterol só do cérebro

Embora o corpo produza colesterol em vários tecidos, o do cérebro é “particular”. Ele é sintetizado ali. E não atravessa livremente a barreira hematoencefálica, que isola o sistema nervoso, por isso seus níveis podem ser diferentes do restante do corpo. “O colesterol cerebral tem metabolismo próprio, e apenas derivados como a 24S-hidroxicolesterol conseguem atravessar essa barreira”, explica Pedatella. Essa separação ajuda, portanto, a proteger o sistema nervoso de variações bruscas na gordura circulante.

Apesar disso, distúrbios sistêmicos do corpo associados aos níveis lipídicos, como a síndrome metabólica, podem afetar indiretamente o metabolismo de colesterol cerebral. Indivíduos com obesidade abdominal, hipertensão e baixos níveis de HDL no sangue, por exemplo, costumam apresentar volume cerebral reduzido.

“Embora as gorduras saudáveis sejam cruciais para a função cognitiva e saúde cerebral, ter baixos níveis de HDL associados a outros problemas metabólicos já foi até ligado a um desempenho cognitivo menor em testes. Então, precisamos investigar mais a fundo se a reversão ou melhora da síndrome metabólica pode beneficiar a saúde cerebral e de que formas”, observa Rached.

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Risco de demência

Além disso, o momento da vida em que o colesterol se eleva parece determinar o risco futuro de demência. “O impacto dos níveis de colesterol sobre o risco de demência é mais significativo quando a exposição ocorre na meia-idade”, alerta o neurologista. Após os 70 anos, essa associação enfraquece, e níveis mais altos podem até se relacionar a melhor prognóstico em alguns estudos.

Então, essas contradições indicam que ainda há muito para entender. “Faltam estudos longitudinais capazes de distinguir causa e efeito do colesterol no cérebro. Também é necessário investigar como intervenções precoces, como dietas equilibradas e controle metabólico, podem preservar a função cerebral”, destaca a cardiologista do Einstein.

Enquanto isso, vale seguir a máxima. Ter uma boa alimentação, seguir os tratamentos medicamentosos quando necessário e praticar atividades físicas não é só questão de coração. É também um investimento na saúde do cérebro.

Fonte: Agência Einstein
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