05 - março - 2026
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DoxiPEP: entenda a ‘pílula do dia seguinte’ contra sífilis e seus riscos

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O uso da doxiciclina após relações sexuais desprotegidas está ganhando adeptos como ferramenta de prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). A estratégia, conhecida como DoxiPEP, ganhou fama de ser uma “pílula do dia seguinte” para evitar a sífilis. Estudos iniciais mostram que ela é eficaz contra algumas ISTs de origem bacteriana. No entanto, o método também levanta preocupações sobre o risco de aumentar a resistência a antibióticos. E, ainda, de estimular relações sem camisinha entre seus usuários.

Em estudos em 2024, a DoxiPEP conseguiu reduzir casos de clamídia e sífilis em 70% e de gonorreia em 50% em voluntários que já eram usuários de PrEP, a profilaxia pré-exposição do HIV, prioritários nas pesquisas. É que os grupos de risco de ambas as doenças costumam coincidir. O protocolo da DoxiPEP consiste na ingestão de 200 mg de doxiciclina em um intervalo de até 72 horas após a exposição sexual de risco.

Há consenso?

A estratégia, porém, não é um consenso. De acordo com a infectologista Fernanda Pedrosa Torres, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia, o uso preventivo do antibiótico continua sendo discutido entre médicos. E, mesmo se for aprovado pelos órgãos reguladores brasileiros, ela diz que ele deve ser adotado apenas por um público de maior risco de exposição e complicações.

“Nos Estados Unidos, o CDC (Centros para Controle e Prevenção de Doenças) autoriza a prescrição para homens que fazem sexo com homens ou mulheres trans que tenham tido diagnóstico de alguma IST que pode ser coberta pela DoxiPEP, no caso sífilis, clamídia ou gonorreia, nos últimos 12 meses. Não há recomendação de uso pela população em geral”, afirma Torres.

O objetivo de iniciativas locais é reduzir a incidência de sífilis, que tem crescido globalmente e no Brasil. Desde 2021, os novos casos aumentam cerca de 11% ao ano no país. Segundo o último boletim divulgado pelo Ministério da Saúde, em 2024, houve 113 casos de sífilis adquirida para cada 100 mil habitantes, o maior número da década.

Por isso,o uso da DoxiPEP já tem sido feito por alguns pacientes, especialmente da comunidade LGBTQIAPN+, mas de forma off-label, sem recomendação em bula. Ainda não há uma diretriz nacional — nem de sociedades médicas, nem do governo — sobre a prática.

No último dia 15 de agosto, o Ministério da Saúde abriu uma chamada pública para colher experiências de pacientes que utilizam ou já tenham utilizado o medicamento. A consulta ficou disponível até esta segunda-feira (25), e as informações servirão para análise da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) sobre uma eventual implantação da DoxiPEPno SUS.

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Riscos da DoxiPEP

Segundo Torres, as evidências que apoiam a DoxiPEP ainda são iniciais e é preciso avaliar o risco-benefício da prática diretamente com o paciente. “A doxiciclina já é usada de forma contínua para profilaxia de algumas doenças, como a malária, e, nesses casos, não mostrou crescimento da resistência bacteriana. Ou seja, temos evidências que são positivas e esperamos que elas sigam se confirmando em novos estudos”, afirma a médica.

A infectologista Gisele Cristina Gosuen, coordenadora do Comitê de Comorbidades da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), também ressalta que os resultados da prática de DoxiPEP são promissores. No entanto, ela ressalta, ainda é preciso avaliar seu uso de forma mais profunda antes de adotá-lo como estratégia preventiva. Segundo ela, o assunto tem sido amplamente discutido na SBI para que se possa desenhar uma recomendação brasileira que oriente seu uso e o público que pode se beneficiar dele.

“O principal risco associado à DoxiPEP ainda é o desenvolvimento de resistência bacteriana”, afirma Gosuen. De acordo com ela, certos casos de gonorreia, por exemplo, parecem desenvolver cepas de maior resistência com a prática. “Porém, ainda não há estudos que evidenciem resistência em casos de sífilis, clamídia e micoplasma, o que é bastante positivo”, observa.

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Efeitos adversos

Mesmo se superar esse entrave, deve-se observar o uso da doxiciclina também por seus efeitos adversos. Alterações gastrointestinais, como náusea e diarreia, sensibilidade a luz e dor articular e muscular são comuns após o uso.

De acordo com Fernanda Torres, alguns dos estudos experimentais mostram taxas de descontinuação do tratamento por aproximadamente 20% dos voluntários por conta desses sintomas. “Deve-se pesar tudo isso, mas também é um antibiótico que deve ser usado em dose única, após relações de risco. Então é difícil mensurar os impactos porque seria um uso muito personalizado e esporádico”, analisa a médica do Einstein.

Vale destacar que, se aprovada para esse tipo de profilaxia, a DoxiPEPseria parte de uma prevenção combinada. “Nada disso é para a gente tirar o uso de preservativo da história. Ao contrário, nossa ideia é que usemos o máximo de estratégias preventivas juntas, como a PrEP do HIV, a realização periódica de exames de saúde, tudo em conjunto”, finaliza.

Fonte: Agência Einstein
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