Você está envelhecendo bem? O seu corpo pode estar dando a resposta, antes mesmo de você fazer um monte de exames, sabia? Hoje, envelhecer com saúde vai além de evitar doenças: envolve autonomia, clareza mental, mobilidade e boas relações sociais.
Até 2050, a população com mais de 60 anos vai dobrar no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os números saltarão de 12% para 22%, o que representa mais de 2 bilhões de pessoas idosas. Viver mais, no entanto, não significa necessariamente envelhecer com saúde.
Envelhecer saudável, à luz da ciência, é envelhecer livre de condições crônicas que prejudiquem sua qualidade de vida.
Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)
O foco agora extrapola o “se viver mais” e mira o “se viver melhor”: com autonomia, clareza mental, mobilidade e vínculos sociais preservados e afetivos. Essa visão ampliada aparece em um artigo no periódico “Geriatrics“.
Os pesquisadores da Universidade de Cagliari, na Itália, analisaram vários conceitos de envelhecimento saudável debatidos nos últimos 50 anos. A conclusão do artigo é que se trata de um fenômeno multifatorial: envolve corpo, mente, relações sociais, cultura, espiritualidade e até a forma como cada pessoa lida com as mudanças da vida.
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Sinais de alerta
A boa notícia para quem quer envelhecer com saúde é que o corpo dá algumas pistas de que algo não está indo bem. Energia ao acordar, sono reparador, equilíbrio ao caminhar, boa memória e disposição são indícios de que o organismo está respondendo bem ao tempo. Até a força de aperto das mãos, sabia? Ela é considerada um importante marcador de saúde global.
Há sinais que merecem atenção, mesmo em pessoas sem diagnóstico de doenças. Dores persistentes, cansaço excessivo, infecções frequentes ou falhas de memória que atrapalham a rotina merecem atenção. Confira alguns sinais de alerta:
- Dores articulares persistentes, por exemplo, não devem ser normalizadas.
A dor não é considerada uma parte normal do envelhecimento.
Isadora Crosara, geriatra do do Einstein Hospital Israelita em Goiânia
- Cansaço desproporcional pode indicar anemia, distúrbios hormonais, problemas do sono, sarcopenia ou sedentarismo.
- Infecções frequentes ou recuperações cada vez mais lentas também acendem o sinal amarelo. Com a idade, ocorre a imunossenescência, uma queda progressiva da eficiência do sistema imune associada a um estado inflamatório crônico de baixo grau, conhecido pelo termo em inglês “inflammaging”. Isso é esperado. O problema começa quando infecções se tornam repetidas, mais graves ou vêm acompanhadas de confusão mental, perda funcional e emagrecimento.
- No campo cognitivo, esquecimentos eventuais recordados logo em seguida, raciocínio mais lento ou dificuldade para aprender algo novo podem fazer parte do envelhecimento. O alerta surge quando o esquecimento passa a interferir na vida diária, compromete tarefas simples, causa desorientação espacial ou vem acompanhado de mudanças de comportamento, julgamento e personalidade.
Várias coisas podem contribuir para o prejuízo da memória e atenção. É preciso ver se existe um transtorno do humor, alterações de vitamina, da tireoide ou do sono e doenças descompensadas.
Isadora Crosara, geriatra do Einstein Hospital Israelita em Goiânia
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O que ainda dá para mudar
A genética tem papel importante na saúde física e mental, no entanto, a maioria das diferenças no envelhecimento vem de fatores físicos e sociais ao longo da vida.
Alimentação, atividade física, sono, vínculos sociais e acesso a condições dignas moldam profundamente como o corpo envelhece. O importante é incluir bons hábitos de acordo com sua rotina e realidade.
Você não precisa ser atleta. Pequenas doses de atividade física ao longo do dia já trazem benefícios reais.
Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)
Mesmo quando iniciados tardiamente, alguns hábitos ativam a plasticidade biológica do corpo. Confira algumas mudanças que você pode adotar tendo em mente envelhecer com saúde:
- Movimente-se todos os dias: não é preciso ser atleta: pequenas doses de atividade física já melhoram força, mobilidade e autonomia.
- Cuide da alimentação: priorize alimentos naturais e equilibrados para sustentar energia e saúde ao longo do tempo.
- Durma melhor: sono de qualidade é essencial para memória, humor e recuperação do organismo.
- Mantenha vínculos sociais: relações afetivas e convivência protegem a saúde mental e emocional.
- Estimule a mente: aprender coisas novas ajuda a preservar memória e raciocínio.
- Abandone o cigarro: é a principal causa evitável de doenças e mortes no mundo.
- Evite excesso de álcool: o consumo exagerado impacta diversos sistemas do corpo.
- Escute seu corpo: dores persistentes, fadiga e esquecimentos não devem ser ignorados.
- Comece agora: mesmo mudanças tardias ainda trazem ganhos reais de saúde e qualidade de vida.
A chave para você envelhecer com saúde pode estar no seu estilo de vida. Não é sobre viver mais anos; é sobre viver melhor a cada um desses anos que estão por vir.
Os desafios para se envelhecer com saúde
Com o rápido aumento da população idosa, cresce também o desafio de garantir qualidade de vida para todos. Sem ações adequadas, esse cenário pode pressionar os sistemas de saúde e assistência social. Por isso, o conceito de envelhecimento saudável ganha força. É preciso manter a autonomia, a saúde física e mental e a capacidade de se viver bem ao longo dos anos.
Nesse contexto, a iniciativa global Década do Envelhecimento Saudável 2021-2030 propõe uma mobilização ampla para melhorar a vida das pessoas idosas. Nas Américas, a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) lidera esse esforço com quatro prioridades:
- Mudar a maneira como as pessoas pensam, sentem e agem em relação à idade e ao envelhecimento;
- Garantir que as comunidades promovam as capacidades de pessoas idosas;
- Fornecer atendimento integrado centrado na pessoa e serviços de saúde primários que atendam às pessoas idosas; e
- Fornecer acesso a cuidados de longo prazo para pessoas idosas necessitadas. (Com Léo Marques, da Agência Einstein)
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