Ter propósito de vida — ou seja, sentir que a rotina tem sentido e objetivos — pode trazer benefícios reais para a saúde do cérebro e do coração. Dois estudos recentes, um realizado nos Estados Unidos e outro no Brasil, reforçam essa relação entre significado na vida, bem-estar emocional e saúde física. Os resultados sugerem que encontrar algo que motive o dia a dia pode ajudar a reduzir o risco de problemas cognitivos e, ainda, contribuir para a saúde cardiovascular.
Na prática, ter propósito não significa necessariamente ter grandes ambições. O sentido da vida pode estar em atividades simples, como cuidar dos netos, cultivar um hobby, participar de grupos sociais, ajudar outras pessoas, trabalhar em algo que traga satisfação ou estabelecer pequenas metas pessoais. Esse tipo de motivação cotidiana parece ter impacto importante no envelhecimento saudável.
Propósito de vida pode proteger o cérebro
O estudo conduzido nos Estados Unidos e publicado na revista científica “Journal of the American Geriatrics Psychiatry“ acompanhou mais de 13 mil adultos com 45 anos ou mais por até 15 anos.
Os pesquisadores observaram que pessoas que relatavam ter maior propósito de vida apresentaram 28% menos risco de desenvolver comprometimento cognitivo, condição que inclui desde perdas leves de memória até quadros de demência.
De acordo com os autores, a explicação está no aumento da resiliência cerebral ao longo do envelhecimento. O efeito protetor foi observado de forma consistente entre diferentes grupos raciais e étnicos.
Embora o estudo não tenha investigado exatamente quais atividades davam sentido à vida dos participantes, os autores citam alguns exemplos comuns:
- Relações afetivas e convivência familiar;
- Participação em atividades sociais;
- Voluntariado;
- Espiritualidade;
- Trabalho ou projetos pessoais; e
- Atividades de lazer.
No cotidiano, isso pode se refletir em atitudes simples. Quem tem objetivos costuma organizar melhor a rotina e se manter mais ativo. Isso pode levar, por exemplo, a sair mais de casa, praticar atividade física, manter uma alimentação mais equilibrada e estimular o cérebro com leitura, conversas e aprendizado.
O estudo mostra o que vemos bastante na prática do atendimento de idosos: aqueles que têm um propósito de vida, seja um objetivo a curto, médio ou longo prazo, se esforçam mais para viver melhor. Isso leva a mudanças no estilo de vida, como prática de atividade física, alimentação saudável e estímulos para manter o cérebro ativo, que podem ser responsáveis pela prevenção da demência.
Thais Ioshimoto, médica geriatra do Einstein Hospital Israelita
Esses hábitos ajudam a fortalecer o chamado estoque cognitivo, que é a capacidade do cérebro de lidar melhor com o processo de envelhecimento. Outro ponto importante é que ter propósito está associado a melhor saúde mental, rotinas mais estruturadas e maior engajamento social, o que reduz sentimentos de solidão e isolamento, fatores associados ao declínio cognitivo.
Faz com que o indivíduo passe a perceber a velhice sob uma ótica mais positiva e, com isso, possa desconstruir o idadismo interiorizado que aumenta sua carga de estresse e contribui negativamente para sua saúde física e mental.
Egidio L. Dórea, nefrologista e coordenador do USP 60+, programa da Universidade de São Paulo (USP) que promove atividades para a população idosa
Além disso, pessoas que encontram sentido na própria vida tendem a encarar o envelhecimento de forma mais positiva, o que pode diminuir o estresse.
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Espiritualidade e saúde do coração
O segundo estudo foi realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e publicado na revista científica “PLOS One“. A pesquisa investigou a relação entre bem-estar espiritual e saúde dos vasos sanguíneos.
Participaram 148 adultos saudáveis, com idades entre 18 e 60 anos. Eles passaram por exames para avaliar o funcionamento do endotélio, uma camada de células que reveste o interior dos vasos sanguíneos e desempenha papel importante na circulação.
Quando o endotélio não funciona adequadamente, ocorre a chamada disfunção endotelial, considerada um marcador precoce de risco cardiovascular.
Os vasos passam a ter mais dificuldade de se dilatar, há maior inflamação vascular, vasoconstrição, aumento da permeabilidade e coagulação.
Marcelo Franken, cardiologista do Einstein Hospital Israelita
Os participantes também responderam a um questionário que avaliava três dimensões da espiritualidade:
- Sensação de paz interior;
- Sentido ou propósito de vida; e
- Fé.
A religiosidade refere-se ao quanto cada pessoa acredita, segue ou pratica uma ou mais religiões. Já a espiritualidade é um conceito mais amplo, presente em todas as pessoas, independentemente de serem religiosas ou não. Envolve a busca por significado, propósito e conexão consigo mesmo, com os outros ou com aquilo que a pessoa considera sagrado.
Julio Tolentino, professor de medicina do Hospital Universitário dos Servidores do Estado, da Unirio (Huse-Unirio), e orientador do estudo
Por meio de perguntas simples, o questionário busca captar como a pessoa vivencia essas dimensões no dia a dia, permitindo transformar uma experiência subjetiva em um indicador mensurável para pesquisa científica.
André Casarsa, cardiologista e um dos autores do estudo
Os resultados mostraram que pessoas com níveis mais altos de paz interior e propósito de vida tinham menor probabilidade de apresentar disfunção endotelial.
Curiosamente, a fé religiosa isoladamente não apresentou a mesma associação. Isso sugere que o benefício pode estar mais relacionado ao equilíbrio emocional e ao sentimento de significado na vida do que à prática religiosa em si.
No dia a dia, esse bem-estar espiritual pode surgir em atividades simples, como momentos de reflexão, meditação, contato com a natureza, participação em grupos sociais ou tempo dedicado a relações importantes.
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Como o estresse afeta coração e vasos sanguíneos
Uma possível explicação para esses resultados envolve o estresse. Pesquisas já mostram que ansiedade, depressão e tensão crônica podem prejudicar o sistema cardiovascular ao aumentar processos inflamatórios no organismo.
Estados associados à paz interior e ao propósito de vida podem ajudar a reduzir esse impacto biológico do estresse. Com menos inflamação e tensão constante, os vasos sanguíneos tendem a funcionar melhor.
Propósito de vida não substitui hábitos saudáveis
Apesar dos achados, especialistas ressaltam que o propósito de vida não substitui os cuidados tradicionais com a saúde. Os principais pilares da prevenção cardiovascular continuam sendo:
- Alimentação equilibrada;
- Prática regular de atividade física;
- Sono de qualidade;
- Abandono do cigarro;
- Controle do peso;
- Controle da pressão arterial;
- Controle do colesterol; e
- Controle do diabetes.
Ainda assim, os estudos reforçam que a saúde emocional e psicológica também faz parte da prevenção. No fim das contas, encontrar algo que dê sentido ao cotidiano — seja um projeto, um vínculo afetivo ou momentos de paz interior — pode ser mais do que uma fonte de bem-estar. Pode também ajudar a cuidar do cérebro e do coração ao longo da vida. (Com Thais Szegö e Fernanda Bassette, da Agência Einstein)
