O uso de telas por crianças e adolescentes está no centro das preocupações de autoridades de saúde no Brasil e no mundo. Documentos recentes de entidades médicas reforçam o alerta: a exposição precoce e sem controle de celulares, tablets e outros dispositivos eletrônicos pode trazer impactos físicos, emocionais e comportamentais. E pode, inclusive, desenvolver sinais de dependência.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Academia Americana de Pediatria (AAP) publicaram orientações atualizadas que defendem regras mais rígidas para o uso de telas na infância. Entre as principais recomendações está a tolerância zero para crianças menores de 2 anos.
No Brasil, o tema ganha ainda mais relevância com a entrada em vigor, nesta terça-feira (17), do Estatuto da Criança e do Adolescente Digital (ECA Digital), lei que estabelece boas práticas para crianças no ambiente online. Já nos EUA, a Academia Americana de Pediatria publicou em fevereiro uma declaração sobre a relação de crianças e jovens com os ecossistemas digitais.
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Exposição às telas e saúde mental
Médicos relatam que os efeitos do uso de telas por crianças durante um período prolongado já são percebidos na prática clínica. De acordo com a pediatra Evelyn Eisenstein, coordenadora do Grupo de Trabalho de Saúde Digital da SBP, a exposição excessiva pode comprometer desde o sono até o desenvolvimento emocional.
O uso prolongado e não supervisionado das telas interfere tanto na saúde do organismo, levando ao sedentarismo e ao comprometimento dos ciclos de sono e dos hormônios que são diretamente vinculados a eles, como também expõe crianças e jovens a conteúdos potencialmente perigosos, que têm levado a transtornos alimentares, ansiedade e até o cometimento de atos de violência contra si mesmo ou contra o outro.
Evelyn Eisenstein, pediatra e coordenadora do Grupo de Trabalho de Saúde Digital da SBP
Entre os principais riscos estão:
- Sedentarismo e alterações hormonais
- Prejuízos no ciclo do sono
- Ansiedade e transtornos alimentares
- Contato com conteúdos perigosos
- Comportamentos agressivos ou autolesivos
Além disso, especialistas destacam que não basta limitar o tempo de uso: é fundamental avaliar a qualidade do conteúdo consumido.
Regra dos “4 Cs” ajuda pais
Para orientar famílias e profissionais, a SBP recomenda observar quatro fatores essenciais no uso digital infantil:
- Conteúdo: o que a criança assiste;
- Contato: com quem interage online;
- Conduta: como se comporta na internet;
- Contratos: relação com plataformas e riscos, como apostas.
Esse monitoramento é considerado essencial para reduzir danos e promover o uso mais seguro de telas.
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Tempo de tela por idade
As diretrizes médicas estabelecem limites claros de exposição às telas, de acordo com a faixa etária:
- Até 2 anos: nenhum uso de telas;
- 2 a 5 anos: até 1 hora por dia, com supervisão;
- Idade escolar: até 2 horas diárias (incluindo estudos);
- Adolescentes: até 5 horas por dia, evitando uso noturno.
A introdução precoce pode afetar habilidades importantes, como linguagem e atenção, especialmente nos primeiros anos de vida.
Papel da família é decisivo
O envolvimento dos pais é apontado como um dos fatores mais importantes para equilibrar a relação das crianças com as telas. O psiquiatra Luiz Gustavo Zoldan, gerente do Espaço Einstein Bem-Estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita, recomenda a criação de um plano familiar de uso de mídia.
Esse plano, segundo o psiquiatra, deve incluir:
- Horários definidos para uso;
- Limites claros para todos da casa;
- Proibição de telas durante refeições; e
- Evitar uso antes de dormir
O exemplo dos adultos também é essencial para estabelecer hábitos saudáveis.
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Como avaliar o conteúdo
Especialistas orientam que os pais façam perguntas simples antes de permitir o acesso a conteúdos digitais:
- É apropriado para a idade?
- Tem classificação indicativa?
- Estimula aprendizado ou é apenas passivo?
- Possui excesso de publicidade ou reprodução automática?
Conversar com a criança sobre o que ela consome também ajuda a desenvolver senso crítico e consciência digital.
Fazer perguntas e estimular o pensamento crítico é o que vai ajudar num consumo mais saudável.
Luiz Gustavo Zoldan, psiquiatra e gerente do Espaço Einstein Bem-Estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita
Quando procurar ajuda
Sinais como irritação, choro frequente ou uso escondido podem indicar dependência de telas. Nesses casos, a orientação é buscar apoio profissional de um psicólogo para avaliação e acompanhamento.
Além disso, aumentar atividades off-line como, por exemplo, brincadeiras, esportes e convivência familiar, é uma das estratégias mais eficazes para reduzir o impacto negativo da tecnologia.
Profissionais capacitados podem permitir que a família perceba onde está a lacuna, o que essa tela está preenchendo no vazio emocional da família e da criança, para poder combater o problema em sua origem.
Evelyn Eisenstein, pediatra e coordenadora do Grupo de Trabalho de Saúde Digital da SBP
Plataformas e governos
As instituições médicas defendem que o controle do uso de telas por crianças não deve recair apenas sobre pais e médicos. Empresas de tecnologia e governos também precisam atuar, criando mecanismos de proteção, como verificação de idade e moderação de conteúdo.
O desafio, de acordo com especialistas, não é eliminar a tecnologia, mas garantir o uso equilibrado e seguro desde a infância. (Com Bruno Bucis, da Agência Einstein)
