Mais de 190 milhões de mulheres em todo o mundo sofrem com endometriose – 7 milhões delas no Brasil. Estimativas apontam que três em cada cinco mulheres que têm a doença não sabem disso. E que, até chegar ao diagnóstico de endometriose, elas sofrem durante sete a 12 anos. De acordo com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), entre 5% a 10% da população feminina em idade reprodutiva tem endometriose.
Os dados alarmantes apontam dificuldades na precisão do diagnóstico de endometriose, pontua a médica ginecologista e obstetra Vanessa Lopes, especialista em ultrassonografia de alta complexidade para diagnóstico de endometriose e infertilidade. “Precisamos investir na escuta dessas mulheres e tirá-las da invisibilidade para que elas tenham direito de escolha: de escolher seus parceiros, de escolher ter filhos”, alerta.
Além de reduzir a necessidade de cirurgias decorrentes de complicações, o diagnóstico precoce evita a exposição aos diversos impactos negativos não contabilizados da endometriose. Entre eles, os prejuízos para a vida afetiva, pela dificuldade no relacionamento sexual; na vida social, pois a mulher não tem disposição para sair, se divertir; no âmbito psíquico, ao causar ansiedade e depressão, além de custar caro para a área de saúde, pois requer tratamento multidisciplinar com fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas e com o próprio ginecologista.
A fonoaudióloga e intérprete de Libras Andressa de Oliveira Rodrigues de Jesus, 44, teve o diagnóstico de endometriose em abril de 2023 em exames de imagem para a cirurgia de limpeza uterina, no período do tratamento para engravidar. “Assustei com o diagnóstico, uma vez que minha menstruação sempre foi como um relógio, com duração no máximo quatro dias, e o fluxo não é intenso”, conta em depoimento ao Papo no Consultório.
Diagnóstico
De acordo com a médica, é preciso formar uma rede qualificada de profissionais para reduzir o risco de diagnósticos superficiais e mal feitos. “Se não houver qualidade e precisão nos diagnósticos dos exames, as pacientes vão receber laudos simples para uma doença complexa”, pontua. O grande problema, diz, é que os profissionais não sabem identificar a doença sob o ponto de vista clínico e sob o ponto de vista de análise do exame.
Vanessa é diretora acadêmica do Instituto Imede, que forma profissionais de ultrassonografia, e integra a Comissão de Titulação do Colégio Brasileiro de Radiologia, que formula as provas de título em Ultrassonografia e Radiologia e Diagnóstico por Imagem.
A endometriose se caracteriza pelo crescimento do endométrio (tecido que reveste o útero internamente) fora do útero, provocando uma inflamação crônica. “Esse tecido cresce em outros órgãos, como intestino, pericárdio, pleura. Há relatos na literatura, inclusive, no cérebro”, explica Vanessa.
Há cerca de 25 anos, era necessário fazer cirurgia para fazer o diagnóstico de endometriose, o que era muito invasivo. “Hoje bons exames de imagem permitem diagnosticar a doença e oferecer um tratamento dentro da sintomatologia, identificando se a paciente é indicada para cirurgia ou não”, explica Vanessa.
Sintomas da endometriose
De acordo com a médica, a endometriose é uma doença muito complexa. Pode haver cólicas intensas que incapacitam a mulher para suas atividades cotidianas no período menstrual; dores durante as relações sexuais; e até, em cerca de metade dos casos, infertilidade. Os sintomas podem vir sempre ou não; serem únicos ou virem juntos; e ocorrerem sempre durante o ciclo menstrual ou a relação sexual – ou não. Daí a necessidade de um olhar cuidadoso para os relatos.
Confira alguns sintomas
- Dor. A paciente pode ter muita, pouca ou nenhuma dor. “A grande maioria tem uma cólica forte, incapacitante, tem que ir para o hospital tomar medicamento venoso. No período menstrual, pode ter dor pélvica persistente, ao urinar, ao evacuar, nas relações sexuais. Essa dor é muito forte. No entanto, não ter dor não significa não ter a doença”, explica.
- Fluxo menstrual. Pode haver aumento do fluxo com muita dor, fluxo normal e até fluxo reduzido. “Não necessariamente ela vai apresentar todos os sintomas em todos os ciclos. Pode ser uma dor de precisar ir para o hospital ou uma cólica de manejo em casa”.
- Urina. Algumas pacientes, quando menstruadas, podem sentir, por exemplo, que o xixi demora para sair. “A dor que é sentida pode ser mimetizada com infecção urinária. Aí faz exame de urina e não tem infecção”, diz Vanessa.
- Evacuação. São relatados distúrbios evacuatórios no período menstrual. Pode haver dor anal durante o período menstrual, uma sensação de peso no ânus, fincada e dor lombar. “A endometriose também está muito relacionada com diarreia ou dificuldade de evacuar”.
- Dor na relação sexual. Pode ser contínua em determinadas posições durante o ato sexual e uma dor insuportável na penetração profunda.
- Infertilidade. Cerca de metade das pacientes tem infertilidade. “Mas não se consegue determinar quais terão infertilidade. Algumas têm muita endometriose e conseguem engravidar. Outras apresentam pouca lesão e não conseguem engravidar”, compara.
Falhas no diagnóstico de endometriose
Dados de um levantamento no Departamento de Informática do SUS (Datasus) indicam que entre 2013 e 2022 houve 119.467 internações por endometriose. A região Sudeste apontou o maior número de internações (49.898) e com predominância de mulheres brancas, responsáveis por 44.507 internações. A faixa etária com maior número de hospitalizações foi de 40 a 49 anos, com média de permanência de 2,4 dias.
Vanessa explica, pois, que a doença ginecológica crônica é de difícil diagnóstico e aponta a fragilidade do diagnóstico de endometriose como um dos motivos que têm prolongado o sofrimento feminino. Para ela é preciso haver uma rede qualificada de profissionais para diminuir o risco de diagnósticos superficiais e mal feitos. “Se não houver qualidade e precisão nos diagnósticos dos exames, as pacientes vão receber laudos simples para uma doença complexa”, pontua.
“O diagnóstico exige uma escuta diferenciada e é isso que a gente precisa passar para os profissionais de saúde. A partir da escuta ativa, eles identificam pacientes potenciais com endometriose. Quem está fazendo o exame de ultrassonografia também deve fazer uma anamnese básica de poucos minutos”, diz a médica.
De acordo com Vanessa, a grande maioria dos médicos faz a análise básica do ultrassom. “Precisamos capacitar os profissionais, aqueles que não são especialistas, a rede básica de médicos, nas grandes e pequenas clínicas, nos consultórios”, defende. Assim, a médica explica, a paciente consegue sair da fase do rastreamento e pode ser encaminhada para um especialista fazer o diagnóstico completo.
Tratamento da endometriose
A médica explica que a identificação precisa da doença possibilita, portanto, tratamentos mais precoces e eficazes. Permite que cirurgia para retirar a lesão seja adotada cada vez mais para casos selecionados. “A tendência é operar cada vez menos, usar cirurgias minimamente invasivas e operar a paciente uma vez apenas. Tenho pacientes que fizeram cinco cirurgias – inclusive mutiladoras –, pacientes sem útero, que não podem ter filhos, aos vinte e poucos anos, 30 anos de idade”, conta Vanessa.
Ela lembra que outros vieses do tratamento são importantes, como alimentação saudável e atividade física. “A dieta é muito estudada, as mulheres em geral não têm apenas dor na parte pélvica, têm doença intestinal inflamatória, doença autoimune… A terapia também ajuda na lida com as consequências da doença”, acrescenta.
A estudante universitária Mônica Vieira, 25, convive com a endometriose desde os 14 anos, logo após a puberdade. Entre os sintomas mais frequentes da doença, ela cita “cólicas menstruais intensas e dor durante a relação sexual”. “Existem várias hipóteses e linhas de estudo (sobre a endometriose). A que eu sigo considera importante pensar na mudança do estilo de vida, na alimentação, prática de exercícios pélvicos que estimulem a diminuição dos sintomas”, diz. “Mas é fundamental dizer que esse tratamento não é igual para todas as mulheres”, complementa a estudante.
O manejo da doença, portanto, precisa ser interdisciplinar. E a mudança alimentar e de vida é importante. A mulher com endometriose deve evitar o tabagismo e a bebida alcoólica, ter uma atividade física, fazer higiene do sono e reduzir o estresse. O tratamento para diminir a inflamação e a dor pode incluir fisioterapia pélvica e até bloqueio hormonal – suspensão do ciclo menstrual, que vai depender o perfil hormonal e da idade da paciente.
Impactos na vida
A doença tem, portanto, importantes repercussões na saúde física e reprodutiva, além de impactos emocional, ocupacional e socioeconômico. “Várias teorias comprovam que a endometriose é uma doença mais complexa do que se pensa. Não se trata de um caso ginecológico, mas de uma doença sistêmica, que leva ao aumento da vulnerabilidade a infecções, alergias, condições psiquiátricas, distúrbios metabólicos e cardiológicos”, explica.
“A falta de diagnóstico tira o direito da paciente de não sentir dor, portanto, tira o seu direito que é só dela”, afirma Vanessa. A médica ressalta que o diagnóstico de endometriose não traz o tempo que a paciente perdeu, mas torna a paciente uma importante voz. “O grande problema dessa doença é que a mulher não é ouvida. É preciso capacitar os profissionais, criar uma rede profissionais que saiba para onde caminhar e ajudar a tirar essa mulher desse ciclo vicioso da doença”, conclui. (Com Agência Brasil)