Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) levou à criação de um tecido repelente contra dengue que pode durar até seis meses. Inédita, a tecnologia lançada agora em calçados pela startup mineira InnoVec oferece proteção eficaz contra picadas de mosquitos. A inovação ajuda, assim, a prevenir e combater outras doenças transmitidas pelo Aedes aegypti além da dengue, com a zika e a chikungunya. O Repeltex® foi testado inicialmente no revestimento de calçados no Brasil e na Tanzânia, mostrando proteção e eficácia.
“Nosso objetivo é proteger não apenas a pessoa, mas também o ambiente doméstico de forma contínua e segura”, explica Álvaro Eiras, sócio-fundador da InnoVec. Os estudos sobre o tecido repelente começaram no Laboratório de Inovação Tecnológica e Empreendedorismo em Controle de Vetores (Lintec) do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG sob a liderança de Eiras.
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Tecido repelente
A solução é inovadora porque, ao contrário dos repelentes disponíveis hoje no mercado, oferece proteção prolongada. A nova tecnologia funciona assim: impregnada em tecidos, a fórmula libera automaticamente o princípio ativo repelente no ambiente por quatro a seis meses.
A ideia de desenvolver um tecido para a fabricação de calçados surgiu diante da observação que os mosquitos picam mais pernas e pés. “As pessoas utilizam calçados durante o dia. E, à noite, geralmente os deixam ao lado da cama para dormir”, explica Eiras. O pesquisador se dedica há décadas ao estudo dos mosquitos vetores de arboviroses.
A capacidade de proteção do tecido repelente contra dengue abrange também pessoas próximas em um raio de 6 metros de quem usa o calçado. E ela é renovada por mais quatro meses com a aplicação de um refil.
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Benefícios do tecido repelente
O Repeltex® não tem cheiro, não requer eletricidade e pode ser aplicado em diversos tecidos, que servem de matriz de liberação. Inicialmente focado em calçados repelentes, o projeto no entanto abre caminho para diversas outras aplicações, como uniformes, acessórios domésticos, móveis e itens de decoração.
As estatísticas da dengue no Brasil reforçam a urgência por soluções inovadoras e eficientes no combate ao mosquito. De acordo com o Painel de Monitoramento das Arboviroses do Ministério da Saúde, houve mais de 6,5 milhões de casos prováveis de dengue em 2024, com prejuízo de R$ 28 bilhões.
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Pesquisa começou na UFMG
O projeto do tecido repelente contra dengue foi realizado entre 2016 e 2019, na UFMG. Inicialmente, houve experimentos de laboratório e de semicampo (situados entre a pesquisa em laboratório e aquela em campo aberto). A ideia, portanto, era avaliar o princípio ativo como repelente e seu efeito na biologia e comportamento dos mosquitos.
Posteriormente, houve a escolha do material para impregnar o ingrediente ativo e para a produção do protótipo em calçados. A matéria-prima escolhida foi um tecido à base de sisal, planta de fibra rígida, de baixo custo e fácil de encontrar no mercado. O sisal absorve o produto e o libera de forma controlada. O repelente é atóxico nas concentrações do Repeltex®.
Testes de campo
Após 24 meses de testes na UFMG, houve experimentos de campo para avaliar dois protótipos de calçados repelentes, um masculino e outro feminino. Os voluntários avaliaram sua eficácia para rechaçar o Aedes aegypti – que transmite dengue, chikungunya e zika – em BH e o Anopheles darlingi – transmissor da malária – em Porto Velho (RO).
Dos 100 pares fabricados para cada uma das cidades, 50 receberam repelente e 50 eram placebos (sem repelente). Os resultados demonstraram que os calçados apresentaram repelência de 74% para o Aedes aegypti e 84% para o Anopheles darlingi (malária). As taxas foram superiores às estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Os voluntários atestaram a eficácia do produto e se disseram dispostos a comprar sapatos e acessórios impregnados. Depois do teste, mais de 80% dos participantes continuavam usando o produto e passaram a usar o calçado em outros ambientes da residência. “Ao visitar algumas casas, observamos que os voluntários haviam posto os calçados em cima da televisão ou de armários para ampliar a proteção”, destaca Eiras.
A startup InnoVec
Com sede no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC), a InnoVec surgiu em 2023 a partir de pesquisas realizadas na UFMG em parceria com o Ifakara Health Institute da Tanzânia, financiado pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) e pela Grand Challenges do Canadá. A startup tem como missão desenvolver soluções tecnológicas eficazes e acessíveis para o combate à dengue, entre outras arboviroses.
O avanço nas pesquisas dentro da UFMG e o desenvolvimento do tecido repelente contra a dengue foram viabilizados por recursos do Sebrae, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).
A empresa conta com parcerias com indústrias têxteis para a produção em escala semi-industrial. Agora, busca investidores para viabilizar a entrada do produto no mercado. Grandes empresas dos setores elétrico, de mineração e de saúde pública negociam a adoção da tecnologia em equipamentos de proteção individual.
Fonte: Agência de Notícias UFMG, com assessoria de imprensa da InnoVec
