12 - maio - 2026
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É possível fazer ‘detox’ de plástico? O que a ciência (ainda não) sabe

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O documentário “Detox de Plástico“, lançado em março na Netflix, populariza a ideia de que seria possível fazer uma “limpeza” desse material no organismo. E que isso traria benefícios para a saúde. Contudo, por mais sedutora que essa hipótese pareça, o que a ciência discute hoje é se reduzir a exposição a esses materiais e aos compostos associados a eles traz algum benefício. E, ainda, quais seriam esses efeitos para o organismo.

No filme, seis casais com dificuldades para engravidar passam 90 dias tentando reduzir drasticamente a exposição cotidiana a plásticos. Eles recebem orientação da epidemiologista reprodutiva Shanna Swan. A experiência se baseia em um estudo piloto real, publicado em março de 2026 na revista “Toxics“. Ao fim da intervenção, os participantes apresentaram redução nos níveis urinários de bisfenol A (BPA) e ftalatos, compostos químicos presentes em plásticos e embalagens.

Sem um grupo controle, porém, o estudo não permite conclusões sobre a relação entre a intervenção e os desfechos reprodutivos. Isso, embora quatro casais tenham engravidado e tido bebês. “Do ponto de vista científico, ‘detox de plástico‘ não é um conceito médico validado”, diz a gastroenterologista Patricia Almeida, do Einstein Hospital Israelita.

A expressão chama atenção e ajuda a comunicar o tema ao público leigo. No entanto, não significa que exista um protocolo para eliminar plásticos e substâncias derivadas do organismo. “A maioria desses compostos não permanece indefinidamente acumulada no corpo. Pelo contrário, costuma ter meia-vida relativamente curta, sendo metabolizada e eliminada”, afirma.

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Aditivos químicos

Além da imprecisão do termo “detox”, a ideia de contaminação por plástico pode confundir quem tenta reduzir a exposição por motivos de saúde. Grosso modo, há dois tipos de exposição. Uma, a fragmentos microscópicos dos polímeros, os microplásticos. Outra, a aditivos químicos, como plastificantes, retardadores de chama e substâncias antiaderentes. São esses aditivos que concentram as evidências mais consistentes de impacto sobre a saúde.

Uma revisão de várias meta-análises publicada em 2024 na “Annals of Global Health” lista alguns desses efeitos. Entre eles, estão disrupção endócrina, redução da qualidade do esperma e doenças cardiovasculares.

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Riscos à saúde

Algumas das substâncias mais estudadas são compostos adicionados aos plásticos para fornecer propriedades específicas, como maleabilidade, resistência ou estabilidade. É o caso dos ftalatos, usados como plastificantes, e do BPA, empregado na fabricação de certos plásticos e resinas. Ambos estão entre os compostos mais associados a riscos à saúde humana.

O BPA tem sido associado a condições como:

  • diabetes tipo 2,
  • obesidade,
  • hipertensão,
  • doenças cardiovasculares, e
  • problemas reprodutivos, como síndrome dos ovários policísticos.

Já os ftalatos foram relacionados a:

  • abortos espontâneos,
  • redução da qualidade do esperma,
  • endometriose,
  • asma, e
  • prejuízos ao desenvolvimento cognitivo e motor infantil.

Pois bem, compostos conhecidos como éteres difenílicos polibromados (PBDEs), usados como retardantes de chama em produtos plásticos, também aparecem associados a prejuízos no desenvolvimento cognitivo infantil. Já as substâncias per e polifluoroalquil (PFAS), chamadas de “químicos eternos” e usadas sobretudo em revestimentos antiaderentes, são associadas a:

  • alterações na tireoide,
  • aumento do índice de massa corporal (IMC) em crianças,
  • transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) em meninas,
  • e rinite alérgica.

Esse contato se dá de diversas formas. Um dos exemplos mais comuns analisados em laboratório são os filmes de PVC, películas transparentes usadas para embalar e armazenar alimentos.

“Aquilo é um polímero de PVC, o mesmo que a gente tem, por exemplo, em canos. Só que, para ter aquele formato de filme mais fino e esticável, é preciso adicionar plastificantes”, explica o químico Fabio Bazílio, doutor em Vigilância Sanitária pelo Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz), que estuda como substâncias presentes em plásticos e embalagens migram para os alimentos, chegando ao organismo.

Essas substâncias podem ser transferidas quando entram em contato com o alimento. No caso dos plastificantes, como os ftalatos, o maior problema são os alimentos gordurosos, porque essas substâncias têm afinidade com a gordura.

Fabio Bazílio, químico, doutor em Vigilância Sanitária pelo Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz)

Como ocorre o contato com microplásticos

O contato com microplásticos pode ocorrer em diferentes etapas da cadeia de produção dos alimentos, como armazenamento, transporte, processamento industrial e em embalagens, revestimentos internos de latas e filmes plásticos. Nesses casos, fatores como calor, fricção e presença de gordura podem intensificar a migração dessas substâncias, que chegam ao organismo principalmente pela ingestão.

“Do ponto de vista da saúde humana, portanto, a alimentação é a principal via de exposição”, frisa a gastroenterologista. “Isso tende a ser mais relevante quando há um padrão alimentar com alto consumo de produtos industrializados, como alimentos embalados, prontos para consumo e mais processados”.

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Microplásticos por todo lado

Paralelamente, a ciência também vem se aprofundando nos efeitos da exposição aos microplásticos, definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como partículas sólidas de plástico ou fibras sintéticas com tamanho entre 1 nanômetro e 5 milímetros, muitas vezes misturadas a aditivos químicos para aumentar sua durabilidade. (Por Marília Marasciulo, da Agência Einstein)

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