Nos últimos meses, o termo “trimestre zero” ganhou espaço nas redes sociais, especialmente no TikTok. A proposta é simples: dedicar os três meses antes da tentativa de engravidar a mudanças no estilo de vida, como dieta, exercícios e uso de suplementos.
A promessa é atrativa: melhorar a fertilidade e reduzir riscos na gestação. Mas até que ponto isso tem base científica? Segundo o ginecologista e obstetra Denis Schapira Wajman, especialista em reprodução humana do Einstein Hospital Israelita, há fundamento biológico na nova tendência nas redes sociais. Óvulos e espermatozoides levam cerca de 90 dias para amadurecer, e hábitos nesse período podem influenciar sua qualidade.
Ainda assim, alerta Wajman, isso não significa resultados garantidos. Uma revisão publicada em 2025 na revista “Human Reproduction Updante“, com 7.795 mulheres, mostrou que mudanças no estilo de vida não aumentaram significativamente as taxas de gravidez em mulheres já saudáveis.
Os benefícios foram mais evidentes em quem apresentava obesidade, infertilidade ou alterações metabólicas. “Ou seja, quem tinha algo a corrigir”, reforça Wajman. “O ‘trimestre zero‘ faz sentido como correção de risco, não como otimização mágica para quem já tem saúde preservada”.
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Riscos do “trimestre zero”
Especialistas alertam para exageros. Dietas restritivas, perda de peso rápida e treinos intensos podem prejudicar a ovulação e desregular hormônios. Além disso, a pressão por resultados pode aumentar ansiedade e frustração.
“Níveis elevados de estresse e ansiedade no período pré-concepcional estão associados a maior dificuldade para engravidar, ciclos irregulares e maior risco de anovulação”, alerta o médico do Einstein.
Essa pressão também se alimenta de uma ideia equivocada: a de que se pode planejar uma gravidez com precisão matemática. “A gravidez não é totalmente controlável, e criar essa ilusão pode gerar sofrimento desnecessário quando a espera se prolonga”, afirma Wajman. Mesmo casais saudáveis têm entre 20% e 25% de chance de engravidar por ciclo.
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Limite biológico
Outro ponto importante é o limite biológico. Uma das promessas mais repetidas nas redes sociais é a ideia de que seria possível “melhorar a qualidade dos óvulos” em poucos meses. No entanto, não é possível melhorar significativamente a qualidade dos óvulos em poucos meses, de acordo com o endocrinologista Fabio Comim, diretor do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e professor do departamento de Clínica Médica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A reserva ovariana, por exemplo, é definida antes do nascimento e diminui com o tempo, especialmente após os 35 anos. “Nenhuma mudança de estilo de vida é capaz de aumentar essa reserva ou rejuvenescer os ovários. Isso é consenso médico. O que o estilo de vida pode fazer é modular o ritmo desse declínio e preservar a qualidade dos óvulos disponíveis”, afirma Denis Wajman.
Acreditar que a qualidade dos óvulos pode ser significativamente alterada em três meses pode levar a expectativas irreais e, consequentemente, frustrações.
Fabio Comim, endocrinologista, diretor do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da SBEM e professor do departamento de Clínica Médica da UFMG
Fator masculino
Outro ponto frequentemente ignorado nos vídeos virais é o fator masculino, presente em até metade dos casos de infertilidade conjugal, sozinho ou combinado com fatores femininos. Hábitos como tabagismo, álcool, sedentarismo e doenças crônicas afetam diretamente a qualidade do sêmen. “A fertilidade é sempre do casal, e o ‘trimestre zero‘ que ignora o homem está resolvendo metade do problema”, observa o médico do Einstein.
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Redução de aborto
Quanto à promessa de reduzir casos de aborto espontâneo, a maioria tem causa cromossômica, e isso não é modificável por nenhum hábito de vida. Por outro lado, há casos como o de hipotireoidismo não tratado, associado a aborto e problemas no desenvolvimento neurológico do feto.
O que faz diferença
Embora não sejam uma solução milagrosa, mudanças no “trimestre zero” podem ter impacto real em alguns casos, principalmente quando há fatores de risco. Parar de fumar, reduzir o álcool, controlar o peso e suplementar ácido fólico ajudam a prevenir malformações e favorecem o desenvolvimento do embrião.
O cuidado com certos produtos de higiene pessoal, incluindo cosméticos de uso contínuo ou cumulativo, também faz sentido. Alguns têm substâncias que são disruptores endócrinos, capazes de interferir nos sistemas hormonais e impactar negativamente a função reprodutiva em homens e mulheres. “Eles devem ser evitados especialmente em períodos de suscetibilidade, como a gestação e a infância”, aconselha Comim. Entre as substâncias estão parabenos, ftalatos, bisfenol A, triclosan e benzofenonas — preste atenção aos rótulos.
Outros pontos essenciais incluem controlar doenças crônicas, manter vacinas em dia, cuidar da saúde mental e realizar acompanhamento médico. Para quem já tem saúde preservada, três meses podem ser suficientes para iniciar algumas dessas medidas. Mas, para pessoas com doenças crônicas ou fatores de risco, o preparo pode levar mais tempo. “O ideal é que o cuidado com a saúde reprodutiva seja contínuo ao longo de toda a vida fértil, e não apenas nos três meses antes de tentar engravidar. Cada consulta com uma mulher em idade fértil é uma oportunidade de identificar e corrigir fatores de risco”, conclui Wajman.
A principal recomendação dos especialistas é clara: o cuidado com a saúde reprodutiva deve ser contínuo — não apenas nos três meses antes da gravidez. (Léo Marques, da Agência Einstein)
