Vídeos alertando os pais sobre uma suposta “epidemia de micropênis” em meninos têm viralizado nas redes sociais. Muitas dessas publicações, que já acumulam centenas de milhares de compartilhamentos, ultrapassam o limite do bom senso e sugerem, inclusive, o uso precoce de testosterona como solução. Para especialistas, esse tipo de conteúdo pode levar pais e responsáveis a acreditar, de forma equivocada, que se trata de uma condição comum ou que qualquer suspeita de tamanho menor exige tratamento hormonal.
Diagnóstico de micropênis
A desinformação começa na própria definição do problema. “Micropênis é um diagnóstico médico objetivo, não uma impressão visual”, explica o urologista Leonardo Borges, do Einstein Hospital Israelita. Segundo ele, trata-se de uma condição rara, que afeta cerca de 0,06% dos meninos.
Em janeiro de 2025, a SBU publicou um parecer reforçando que o micropênis é uma condição rara e qualquer suspeita de alterações genitais precisa de avaliação com base em critérios clínicos rigorosos. O diagnóstico se baseia na medição padronizada do comprimento peniano esticado, sempre comparada a curvas de referência para idade e estágio puberal. “Não basta parecer pequeno. É preciso medir corretamente e interpretar no contexto clínico”, afirma Borges.
Outro ponto ignorado nos vídeos sobre a suposta “epidemia de micropênis” é que o crescimento do pênis não ocorre de forma contínua. Há fases específicas de maior desenvolvimento: a “minipuberdade”, ainda no período intrauterino, nos primeiros meses de vida, e a puberdade, geralmente a partir dos 12 ou 13 anos. “Olhar uma criança em um único momento e concluir de forma apressada que há uma doença é um erro”, reforça o urologista.
Na prática, muitos meninos levados ao consultório por suspeita de “pênis pequeno” não apresentam micropênis verdadeiro. Em grande parte dos casos, trata-se apenas de variações anatômicas normais ou situações que causam falsa impressão, como o acúmulo de gordura na região pubiana, mais comum em crianças com sobrepeso.
Desinformação
Um levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), apresentado no 40º Congresso Brasileiro de Urologia, confirmou essa diferença entre percepção e realidade. O estudo avaliou a percepção de pais de 99 meninos atendidos em um mutirão em Florianópolis. Embora 48% considerassem o tamanho do pênis do filho dentro da normalidade, cerca de 24% acreditavam que ele estava abaixo da média.
Quando os médicos fizeram as medições corretas, observaram que os responsáveis subestimavam o tamanho em cerca de 2,5 centímetros a 3 centímetros. Nenhuma das crianças avaliadas tinha micropênis, o que reforça o desconhecimento sobre as variações normais da anatomia infantil.
“Existem variações anatômicas que podem dar a impressão de pênis pequeno. Um exemplo é o chamado pênis ‘enterrado’, quando a haste fica parcialmente escondida pela gordura. Outra é o pênis em faixa ventral, quando uma banda de pele entre o escroto e o corpo do pênis cria aparência de encurtamento. Outra é o chamado ‘pênis preso’, que pode ocorrer por cicatrização excessiva após procedimentos como circuncisão”, explica a urologista pediátrica Veridiana Andrioli, da SBU.
Diante de dúvidas, a orientação é procurar avaliação médica. “Na maioria das vezes, uma breve explicação sobre o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários e etapas de desenvolvimento traz tranquilidade a todos”, afirma Andrioli.
O diagnóstico de micropênis segue critérios técnicos rigorosos. “O micropênis é um pênis que está a dois desvios-padrão abaixo da média do tamanho peniano na população”, explica o urologista pediátrico Ubirajara Barroso Junior, da Universidade Federal da Bahia. “Em crianças recém-nascidas, por exemplo, o pênis estirado deve ter pelo menos 2 centímetros”, completa. Essa avaliação, porém, fica a cargo exclusivamente de profissionais especializados.
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‘Epidemia de micropênis’?
Alguns vídeos que alimentam a narrativa de uma “epidemia de micropênis” atribuem a condição a fatores ambientais, como microplásticos e disruptores endócrinos. No entanto, não há respaldo científico para essas afirmações. “Escalas de tamanho peniano vêm sendo publicadas há mais de 80 anos, e o tamanho do pênis tem se mantido estável ao longo do tempo”, diz Barroso Jr.
Em janeiro de 2025, a SBU publicou um parecer oficial reforçando que o micropênis é raro e que qualquer suspeita deve ser avaliada com base em critérios clínicos.
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Uso de testosterona
O uso de testosterona só é recomendado em casos específicos: quando há diagnóstico confirmado de micropênis ou deficiência hormonal comprovada. Fora dessas situações, portanto, o tratamento pode trazer riscos, como puberdade precoce e interferências no crescimento.
Por isso, a avaliação deve ser feita por especialistas. “Dizer que todo micropênis precisa ser tratado com testosterona é simplificar demais um tema que exige precisão diagnóstica. A medicina séria não trabalha com mensagens prontas para redes sociais, muito menos quando se trata de crianças”, alerta Leonardo Borges. (Com Fernanda Bassette, da Agência Einstein)
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