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Slow medicine: uma medicina sem pressa

Movimento tenta resgatar relação médico-paciente

Slow medicine, ou medicina sem pressa, divulga sua filosofia de trabalho no Brasil
slow medicine
Crédito: Freepik

Você já ouviu falar do movimento slow medicine, ou medicina sem pressa? A expressão foi usada pela primeira vez em 2002 , inspirada no movimento slow food. E suas ideias vêm sendo divulgadas no Brasil há pouco mais de um ano.

A slow medicine não é uma especialidade médica, mas uma filosofia de trabalho. “Eu entenderia a slow medicine como um resgate do que sempre caracterizou a prática da medicina. Uma relação médico-paciente sólida, de confiança, construída com o convívio. E que permita a conexão entre médicos, pacientes e familiares”, defende o médico geriatra e clínico geral José Carlos Aquino de Campos Velho, editor do site Slow Medicine Brasil. 

Para conquistar esse objetivo, admite o médico, o tempo tem um papel essencial. “Desde o tempo adequado de consulta (que pode variar) bem como o acompanhamento longitudinal do paciente, considerando a passagem dos dias, meses e anos”, argumenta. Confira entrevista na qual ele fala um pouco mais sobre os objetivos do movimento.

Quais os principais pontos em que a slow medicine se baseia?

Slow medicine ou medicina sem pressa, como traduzimos para o português, é uma filosofia e uma prática médica que se assenta em quatro pilares: o resgate do tempo, o resgate da relação médico-paciente como fulcros da atividade médica, o compartilhamento das decisões com o paciente e seus familiares e o uso ponderado da tecnologia diagnóstica e terapêutica no processo de tomada de decisões.

Como e quando ela surgiu?

O cardiologista italiano Alberto Dolara usou essa expressão pela primeira vez em 2002, inspirado no movimento slow food. Atualmente, existem iniciativas nos EUA, Itália e Holanda. A divulgação de seus princípios de forma sistemática se iniciou no Brasil a partir da publicação de nosso site em abril de 2016 (a página reúne publicações sobre o tema e sistematiza as ideias do movimento aqui no país).

Quais as similaridades e diferenças entre a slow medicine e a prática humanista?

Humanizar a medicina é algo como vegetalizar a botânica…. A slow medicine se configura como uma das vertentes que apontam a humanização dos médicos e dos profissionais de saúde. É uma alternativa concreta ao atual estado na área de saúde, onde a tecnologia tem tomado a frente das decisões médicas. Através de seus princípios e da sua filosofia, crê apontar caminhos através dos quais as ideias de uma medicina centrada na pessoa, e portanto “humanizada”, possa ser colocada em prática. A slow medicine hoje tem um corpo de conhecimentos que têm sido sistematizados e que a diferenciam da ideia de medicina humanizada. Propomos considerações teóricas e práticas que funcionam como ferramentas para os profissionais de saúde usarem no atendimento dos pacientes.

O senhor poderia citar exemplos de como funciona a slow medicine na prática, comparando com uma consulta atual?

Eu entenderia a slow medicine como um resgate do que sempre caracterizou a prática da medicina. Uma relação médico-paciente sólida, de confiança, construída ao longo de um tempo de convívio. Para isso o tempo tem um papel essencial, desde o tempo adequado de consulta (que pode variar, de acordo com o local onde essa consulta se dá) bem como o acompanhamento longitudinal do paciente, considerando a passagem dos dias, meses e anos. Mas um tempo suficiente para que as decisões possam ser tomadas visando o bem do paciente e sua qualidade de vida, respeitando seus valores e expectativas.

Qualquer especialidade médica pode adotar a slow medicine?

Sim, a slow medicine não é uma especialidade médica e nenhum profissional pode-se afirmar “especialista em slow medicine”. Trata-se, como já afirmamos, de uma filosofia de trabalho, que pode permear toda e qualquer ação em saúde que tenha relação com o cuidado do paciente. Dessa maneira, acreditamos que muitas pessoas já usam esses conceitos há muito tempo em sua prática cotidiana. A slow medicine vem fornecer ferramentas que sistematizam essas ideias, facilitando ao profissional a incorporação de seus princípios em sua prática.

O movimento tem muitos adeptos no Brasil?

Não detemos de estatísticas ou números que possam afirmar quantos simpatizantes ou seguidores temos. Cremos que temos tido um crescimento expressivo no interesse sobre nossas ideias e atividades, pelo que podemos observar em nossos grupos nas redes sociais, nossa presença na mídia e em eventos na área de saúde. Até muito recentemente, a expressão slow medicine era praticamente desconhecida no Brasil. Hoje as pessoas já começam a esboçar familiaridade com o termo. Mas podemos considerar a questão da solidez da iniciativa como um princípio que a norteia. Já está no nome: slow medicine. Melhor um crescimento lento, sustentado e com alicerces sólidos, do que uma iniciativa que tenha um brilho fugaz e desapareça celeremente como tantas outras.

A slow medicine parece mais um nome dado ao que já deveria ser inerente à prática médica…

O dr. Ladd Bauer, autor do primeiro artigo em língua inglesa sobre slow medicine, fez o seguinte comentário em nosso site: “Devemos fazer o nosso melhor para manter a slow medicine como um conceito aberto, como um grande guarda-chuvas que cobre todas as formas de medicina permeadas de boas ideias de como cuidar dos pacientes. Um meme, não um plano ou um conjunto de técnicas. Uma reconstrução cultural de valores”. E creio que a medicina sem pressa hoje é uma expressão do Zeitgeist , “o espírito do nosso tempo” – uma medicina mais próxima do desejo dos médicos e dos pacientes, onde a parceria, a camaradagem, a paixão pelo ato de cuidar e a compaixão pelo próximo voltam a ter um papel central na atenção médica.

Fonte: Médico geriatra e clínico geral José Carlos Aquino de Campos Velho. Editor do site Slow Medicine Brasil.
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