23 - abril - 2026
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Comer muito ultraprocessado aumenta risco de depressão persistente

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Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) revela que o alto consumo de alimento ultraprocessado aumenta o risco de depressão. E, ainda, de essa doença persistir durante anos. Os resultados estão na edição de maio do “Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics“. Os cientistas usaram dados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil),

A investigação acompanhou mais de 14 mil pessoas ao longo de oito anos. A avaliação se baseou em três períodos: 2008 a 2010, 2012 a 2014 e 2017 a 2019. Os primeiros resultados revelaram aqueles que consumiam mais ultraprocessados no início do estudo tinham um risco 30% maior de desenvolver depressão.

Mas não foi isso o que mais surpreendeu os autores e especialistas da área. É que a associação entre o transtorno mental e o consumo desses produtos industrializados carregados de sódio, gorduras e conservantes já é conhecida.

“Isso porque os ultraprocessados têm um perfil pobre de nutrientes – eles substituem alimentos não processados e mais saudáveis, como frutas, verduras, legumes, castanhas, sementes, alimentos integrais”, explica a psicóloga Naomi Vidal Ferreira.

“Além disso, eles contêm altos níveis de açúcar, gorduras saturadas, sódio e aditivos químicos, promovendo um ambiente inflamatório no organismo”, complementa. Ela é pós-doutoranda da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e principal autora da pesquisa.

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Ação no cortisol

Esse perfil de nutrientes pode impactar negativamente a microbiota intestinal e levar à neuroinflamação por meio do eixo intestino-cérebro. Isso pode levar à ativação de respostas de defesa do corpo, aumentando a produção de cortisol, o que impacta negativamente o humor e pode estar associado ao aumento de sintomas depressivos.

“A flora intestinal tem papel fundamental na produção de neurotransmissores como serotonina e ácido gama-aminobutírico, que regulam funções cerebrais. Alimentos ultraprocessados afetam negativamente essa microbiota, comprometendo esse processo”, detalha o psiquiatra Alfredo Maluf, do Hospital Israelita Albert Einstein.

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Depressão persistente 

O que mais chamou atenção na pesquisa foram os quadros de depressão persistente ao longo dos oito anos de acompanhamento. Os participantes foram classificados em três grupos: os que não tiveram depressão em nenhuma das avaliações, os que foram diagnosticados em apenas uma das análises e os que receberam o diagnóstico em duas ou mais fases.

Aqueles com maior consumo de ultraprocessados no início da pesquisa eram 58% mais propensos a desenvolver depressão persistente – ou seja, episódios recorrentes ao longo das avaliações. “Esse achado é novo. A relação entre consumo de ultraprocessados e persistência da depressão não é muito explorada na literatura”, comenta Ferreira.

Segundo Maluf, essa evidência reforça a hipótese de que uma alimentação ruim pode não apenas desencadear um episódio depressivo, mas também dificultar sua remissão. “Hoje já se fala em psiquiatria do estilo de vida: mesmo com medicações adequadas, se a pessoa não fizer atividades físicas e não tiver um bom padrão alimentar, é difícil atingir uma boa resposta clínica, porque estará bombardeando a microbiota intestinal o que dificulta a regressão da atividade inflamatória sistêmica”, explica o especialista.

Substituição de alimentos

Além de avaliar se o ultraprocessado aumenta o risco de depressão, o estudo da USP também analisou o impacto da substituição alimentar na prevenção da depressão. Simulações matemáticas indicaram que substituir 5% da ingestão calórica de ultraprocessados por alimentos minimamente processados pode reduzir o risco de depressão em 6%. Já uma substituição de 20% poderia diminuir esse risco em 22%.

Essa quantificação também é uma das inovações da pesquisa e mostra que mesmo pequenas mudanças na dieta podem ter efeitos positivos relevantes. “Essa diminuição é esperada e mais evidências devem surgir. Mas é um desafio, já que não existem políticas governamentais que atuem de forma consistente na mudança desses hábitos. No caso do tabagismo, por exemplo, só conseguimos diminuir o consumo de cigarro devido às campanhas, alterações nas leis e criação de tributos”, comenta Maluf.

Variáveis

Outro aspecto avaliado para entender como o ultraprocessado aumenta o risco de depressão foi a influência de variáveis sociodemográficas. Segundo a pesquisa, jovens, mulheres, pessoas negras ou pardas, fumantes, indivíduos com maior ingestão calórica e maior índice de massa corporal (IMC) são mais propensos a desenvolver depressão. Em contrapartida, pessoas com ensino superior, casadas e fisicamente ativas apresentam menor risco de ter a doença.

Na visão dos especialistas, pois, esses achados reforçam a realidade observada em consultórios e outros estudos clínicos: grupos em maior vulnerabilidade social ou com estilo de vida pouco saudável tendem a apresentar maiores índices de doenças mentais. “É uma somatória de fatores: má alimentação, obesidade, sedentarismo e baixa qualidade de vida tornam esses indivíduos mais suscetíveis à cronicidade da depressão”, diz Maluf.

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Os resultados do estudo ganham ainda mais importância por se tratar de uma pesquisa brasileira. Na América Latina, inclusive, o Brasil lidera o ranking de prevalência da depressão. “Considerando o impacto econômico e social da depressão, especialmente em um país com alta desigualdade, as evidências geradas têm potencial para influenciar decisões em saúde pública e melhorar a qualidade de vida da população”, concluiu o psiquiatra do Einstein.

Ultraprocessados

Os alimentos ultraprocessados são definidos dentro do sistema de classificação NOVA, criado em 2009 por pesquisadores do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da Universidade de São Paulo (USP). Essa classificação foi amplamente divulgada após a publicação do “Guia Alimentar para a População Brasileira”.

Essa classificação divide os alimentos em quatro grupos, conforme a extensão e a finalidade do processamento industrial: in natura / minimamente processados, ingredientes culinários, alimentos processados e alimentos ultraprocessados.

Alimentos minimamente processados são aqueles que passam por poucas alterações no processo de industrialização, mantendo sua estrutura original e a maior parte dos nutrientes. Já os ultraprocessados são formulações de ingredientes que contêm pouco ou nenhum alimento intacto. Eles passam por mais de uma indústria e têm substância nunca ou raramente usada na cozinha. Como, por exemplo, aditivos para tornar o produto mais durável, palatável e/ou atraente.

Conheça os alimentos processados e ultraprocessados:

Exemplos de produtos processados: hortaliças como cenoura, pepino, ervilha, palmito, cebola e couve-flor em conserva; extrato ou concentrados de tomate; frutas em calda e frutas cristalizadas; carne seca e toucinho; sardinha e atum enlatados; outras carnes ou peixes salgados, defumados ou curados; queijos; pães e produtos panificados em geral.

Exemplos de produtos ultraprocessados: doces ou salgadinhos de pacote, biscoitos, sorvete, balas e guloseimas em geral; refrigerantes e refrescos; sucos adoçados e bebidas “energéticas”; cereais matinais açucarados; bolos, misturas para bolo e barras de cereais; bebidas lácteas e iogurtes adoçados e aromatizados; sopas, macarrão e temperos “instantâneos”; pratos pré-preparados ou semiprontos incluindo massas, pizza, pratos à base de carne, peixe ou hortaliças, hambúrguer, salsicha e outros embutidos, carne de aves e peixes empanada ou do tipo nuggets.

Fontes: Agência Einstein com informações do Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde
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