DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO

O que você precisa saber sobre os testes de dengue

Você tem dúvidas sobre os exames para diagnosticar dengue?

Sorologia apresenta riscos de reação cruzada com outras doenças e testes rápidos podem ter resultado falso-positivo; exame mais preciso é o teste molecular
dengue
Crédito: Freepik

Há cerca de 20 anos, sofremos com epidemias de dengue. Neste ano, até o dia 28 de janeiro, foram registrados mais de 21 mil casos prováveis (que incluem os confirmados e os ainda em investigação) de dengue no país. Isso representa, em média, 77 casos por dia.

De acordo com especialistas ouvidos pelo blog, os testes para detectar dengue já estão bem-estabelecidos no Brasil. Mas alguns apresentam reação cruzada com outras doenças e resultado falso positivo-negativo. Por isso, é importante que o médico analise os resultados considerando o quadro clínico do paciente e a situação endêmica local. E o paciente precisa ficar atento ao início dos sintomas. O tipo de teste a ser realizado vai depender se a doença está na fase aguda (inicial) ou não.

O médico patologista Celso Granato, membro da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), explica que a dengue (como a zica e a chicungunya) tem duas características. Uma delas é que o vírus que provoca a doença só pode ser detectado na primeira semana, até 5 dias após o início dos sintomas. “O organismo demora a perceber que está tendo uma infecção e o organismo, a produzir anticorpos”, justifica.

Fase inicial

Nesse período, na chamada fase aguda, podem ser feitos dois exames para diagnóstico da dengue. Um deles é o teste para antígeno NS1 (proteína produzida intensamente pelo vírus da dengue). O exame é semelhante ao teste de gravidez: separa-se o sangue e goteja o soro em uma tira de papel. O resultado sai em até 30 minutos. Mas a entrega do resultado para o paciente pode demorar até um dia útil dependendo da logística de cada laboratório.

“Quando doente, o NS1 é fundamental para o diagnóstico da dengue”, afirma a diretora médica do Laboratório São Marcos, em Belo Horizonte, a médica hematologista Mariana Cerqueira. Ela ressalta que os períodos de dengue grave geralmente ocorrem a partir do terceiro dia. “Quanto mais precoce o diagnóstico, mais rápido o tratamento adequado”, justifica.

O outro exame que pode ser realizado na fase inicial da dengue é o teste molecular ou PCR, que avalia o RNA do vírus. “É o mais assertivo porque não dá falso positivo”, defende o bioquímico e farmacêutico Adriano Basques, gerente técnico do Laboratório Geraldo Lustosa, em Belo Horizonte. Mas ainda é um exame muito caro (em torno de R$ 400). E seus resultados demoram mais – dependendo do laboratório, de 4 a 6 dias úteis.

Anticorpos

A partir da segunda semana de sintomas (8 dias), é possível detectar apenas os anticorpos. São dois: o IgM, produzido na fase aguda, e o IgG, que demora mais a ser produzido. Geralmente, o IgG detecta uma infecção antiga, mas, a partir do 8º a 10º dia de sintomas, já pode dar positivo para uma doença recente.

Reação cruzada

No começo da segunda semana, o organismo começa a “abafar o incêndio” para não deixar a infecção tomar conta do organismo. “Aí temos um problema com o IgM. Pode ocorrer reação cruzada entre várias doenças – por exemplo, mononucleose e toxoplasmose”, explica o médico patologista. Esses detalhes podem induzir o médico a erro. “Ele precisa analisar o quadro clínico do paciente com cuidado”, diz Granato.

Além disso, os vírus da dengue e da zica são da mesma família (flavivírus). Ao avaliar o resultado dos exames de anticorpos IgM para dengue, o médico deve considerar a situação endêmica local (quais vírus circulam na região, se há surto ou epidemia) e os dados clínicos do paciente (evolução dos sintomas). Granato esclarece que a dengue se caracteriza mais por fraqueza e dores de cabeça e nos olhos. A zica, por dores mais intensas no corpo e olhos vermelhos (conjuntivite). Já a chicungunya, diz, caracteriza-se mais pela artrite (dores nas articulações).

Reinfecção

Com o IgG, o problema de reação cruzada ocorre menos. “É importante fazer o IgG junto com IgM para o médico saber se é reinfecção”, defende Granato. É que existem quatro tipos de vírus da dengue, e uma pessoa pode ser infectada mais de uma vez. Na primeira infecção, 3 em cada 1.000 casos se tornam graves. Na reinfecção, a incidência da gravidade aumenta dez vezes – sobe para 3 em cada 100 casos. O exame IgG, no entanto, não detecta se é a segunda ou a terceira infecção.

A diretora médica do Laboratório São Marcos explica que o IgG pode ser feito com segurança a partir do 5º dia de sintomas. “No 6º dia com dengue, 100% da população apresenta esse anticorpo. Tem gente que dá positivo já no 1º dia de sintoma e 60%, no terceiro”, diz Mariana Cerqueira.

Testes rápidos

A segunda característica da dengue, segundo Granato, refere-se aos exames para diagnóstico. “Os testes rápidos, que levam de 15 minutos a 30 minutos depois da coleta do sangue, não têm a mesma qualidade. Talvez sejam duas vezes menos precisos do que os outros, que demoram de 2 a 3 dias para ficarem prontos”, compara.

Segundo o médico patologista, o resultado dos exames mais comuns de IgM (feitos entre o 5º e 6º dia de sintomas) demora 4 horas. Já o teste PCR (molecular) não tem como ser rápido. “Existem alguns equipamentos que fazem o processo em 1 hora e 30 minutos, mas são poucos”, diz o médico patologista.

Combo de testes rápidos para dengue

Para tentar reduzir o risco de falso negativo-positivo dos testes rápidos da dengue e agilizar a entrega dos resultados, o Laboratório São Marcos, em Belo Horizonte, está oferecendo um combo. São três testes rápidos para dengue (IgM, IgG e NS1) e, se o paciente quiser, mais o hemograma para avaliar o número de plaquetas. “O combo melhora a performance do teste rápido. A chance de falso positivo ou falso negativo cai demais. E permite o melhor tratamento para o paciente”, explica Mariana Cerqueira.

A diretora médica do São Marcos diz que os testes rápidos estão no rol da ANS – Agência Nacional de Saúde Suplementar desde 2016. Mas que nem sempre os laboratórios conseguem liberar o resultado em 30 minutos por causa da logística. A coleta de sangue é feita em todas as unidades, mas quase sempre o exame é realizado em uma central.

Por isso, geralmente, quando o sangue é colhido pela manhã, o resultado sai apenas de tarde. Se a coleta de sangue é feita de tarde, o resultado é liberado no dia seguinte. “É o fluxo normal em um laboratório”, explica. Segundo ela, o São Marcos concentrou a oferta do combo na unidade do bairro Serra para agilizar a entrega dos resultados em até 30 minutos.

PCR para dengue, zica e chicungunya

Já o Laboratório Geraldo Lustosa, em Belo Horizonte, oferece o PCR Trio (combo de teste moleculares) para diagnóstico de dengue, zica e chicungunya. “A sorologia para zica e chicungunya tem reações cruzadas com dengue. Não é uma excelente ferramenta de diagnóstico. O combo de testes moleculares acaba com esse problema”, diz Adriano Basques. Outra vantagem é que pode ser feito quando os sintomas ainda são inespecíficos. O teste molecular identifica o material genético do vírus presente no sangue no início da doença. Por isso, a coleta de sangue deve ser feita até o 6º dia após os sintomas. Não é necessário jejum.

“Infelizmente, ainda não temos testes rápidos para detectar os vírus zica e chicungunya”, diz Granato. Por isso, ele explica que, na suspeita dessas doenças, deve ser feito o teste molecular na primeira semana de sintomas. “É um exame mais caro e mais demorado, feito apenas nos grandes laboratórios. O custo de controle para 1 ou 10 testes é o mesmo”, justifica o médico patologista. O PCR Trio sai mais barato do que fazer os três exames separadamente. É que o processo mais caro da execução do exame é a extração do material genético do vírus para a análise. Ao fazer o trio, o valor dessa etapa é diluído por três.

Adriano Basques ressalta que uma gestante não pode ter dúvida sobre a infecção por zica. “A grávida deve fazer o PCR mesmo assintomática, caso ela ou marido tenham estado em região com casos da doença”, diz ele, lembrando que 80% dos casos de zica são assintomáticos. Segundo o gerente técnico do Geraldo Lustosa, o laboratório realiza também o exame de urina para detectar zica. Nesse caso, explica ele, a urina deve ser colhida até 21 dias após a picada do mosquito.

Serviço

Veja quando o exame deve ser pedido de acordo com o tempo de sintomas apresentados em caso de suspeita de dengue:

  1. PCR (diagnóstico molecular e tipagem do vírus da dengue)
    Amostras de sangue
    Preferencialmente, nos primeiros 5 dias dos sintomas
    O tempo de liberação dos resultados é de 4 dias úteis
    Preço: R$ 375
  2. NS1 (identificação de antígeno viral)
    Amostra de sangue
    Deve ser realizado nos primeiros 5 dias de doença
    O tempo de liberação dos resultados é de, aproximadamente, 1 dia útil
    Preço: R$ 95,26
  3. Sorologia IgM e IgG (identificação de anticorpos)
    Amostra de sangue.
    Deve ser realizado a partir do 5º dia dos sintomas
    O tempo de liberação dos resultados é de 3 dias úteis para ambos os testes
    Preço: R$ 51,87, cada exame
Fonte: Priscila Saleme, médica infectologista do setor de vacinas do Grupo Hermes Pardini.

Veja os tipos de exames diferenciais oferecidos para o diagnóstico de dengue na rede particular* em Belo Horizonte:

* Para saber se o teste solicitado por seu médico é coberto pelo seu plano de saúde, é preciso ligar para o laboratório e verificar.

Combo de testes rápidos para dengue (NS1, IgM e IgG) + o hemograma

Oferecido pelo Laboratório São Marcos**, apenas na unidade do bairro Serra, inclui os exames:

  1. NS1 – Detecta o antígeno NS1– um proteína específica – do vírus da dengue
  2. IgM – Detecta o anticorpo de defesa presente no organismo que tem doença ativa
  3. IgG – Detecta anticorpo presente no organismo que teve infecção passada
  4. Hemograma – Detecta alterações no número de plaqueta e de trombócitos.
  • Como é feito o combo:

Com amostra de sangue

Ao apresentar sintomas

Resultado em 30 minutos

Preço: R$ 149

** O atendimento precisa ser agendado pelo telefone 2104-0100. As outras unidades também oferecem os exames, mas o resultado demora mais para ser entregue.

PCR Trio (dengue, zica ou chicungunya)

Oferecido pelo Laboratório Geraldo Lustosa***, inclui os exames:

  1. PCR para dengue
    Preço: R$ 369
  2. PCR para chicungunya
    Preço: R$ 399
  3. PCR para zika
    Preço: R$ 389
  • Como é feito o PCR Trio:

Com amostra de sangue

Até o 6º dia de sintomas

Resultados em 6 dias úteis

Preço: R$ 870 (os três exames juntos)

*** Também oferece os exames de sorologia e testes rápidos para detectar dengue.

Fontes: Mariana Cerqueira, médica hematologista e diretora médica do Laboratório São Marcos; e Adriano Basques, bioquímico e farmacêutico, gerente técnico do Laboratório Geraldo Lustosa.

Observação: Os preços dos exames foram fornecidos em fevereiro e março de 2017 pelos laboratórios e podem sofrer alterações.

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